Espaço do Curioso — 07/11/11
Somos o que escolhemos esquecer: a arte da memória, por Izquierdo

Nossa memória é feita de lembranças e esquecimentos, e tanto uns quanto outros são fundamentais para sermos pessoais saudáveis vivendo em sociedade. Somos o que lembramos, mas também o que esquecemos, e o esquecimento é uma arte, ou seja, uma habilidade, fundamental; que é tanto inerente quanto adquirida e portanto, pode ser aperfeiçoada. Colaboradora: Ruth Verde Zein, 56, arquiteta.

Como afirma o médico neurocientista Ivan Izquierdo, autor do livro “A arte de esquecer”, se não há fórmulas para a felicidade, talvez haja para o bem-estar; e para sua boa prática, o esquecimento é fundamental.

O que é a memória? A ciência ainda não tem respostas completas para essa pergunta, mas como revela Izquierdo, em seu livro, muitos cientistas vem trabalhando intensamente para tentar entender cada vez melhor os processamentos bioquímicos de nosso cérebro e suas relações com a capacidade de aprender e pensar, recordar e esquecer.  A ciência quer responder perguntas fáceis que tem respostas muito difíceis: como adquirimos e processamos as informações que nosso corpo constantemente absorve por todos seus sentidos? Ou, como essas informações nos ajudam a aprender atividades altamente complexas, como andar de pé e nos expressarmos em nossa língua materna, reconhecermos e reagirmos a situações de perigo, fome ou apelo sexual? Como conformamos, adquirimos e fixamos nossas memórias, que nos permitem ser e nos reconhecer quem somos? Como as evocamos  e esquecemos a imensa quantidade de informações que adquirimos todos os dias, e cuja recordação minuciosa resultaria apenas em um peso inútil?

As perguntas parecem filosóficas, e são – relembrando que a filosofia nasceu há 25 séculos integrando o que hoje chamamos de física, matemática, química, astronomia, psicologia, sociologia, política, e muitas coisas mais.  Desde então esses saberes foram se especializando e se separando, buscando as várias facetas da mesma coisa: compreender a nós mesmos e ao mundo em que vivemos. Como dizem os cientistas, e nos relata Izquierdo, é em nosso cérebro onde todos esses conhecimentos se reintegram e fazem sentido. Os neurocientistas hoje sabem que, embora certas partes do cérebro sejam mais responsáveis por cada aspecto do aprender, pensar, recordar  e esquecer, não há especialização total mas trabalho conjunto das partes. A memória não está em parte alguma, mas em todas as partes: e embora isso pareça filosofia também é pura ciência.

Para falar da memória, e da arte de esquecer, Ivan Izquierdo nos leva em seu livro pelos caminhos da ciência, da filosofia, da literatura, equilibrando bom senso prático e conhecimento especializado. A leitura é muito agradável e intercala drops de conhecimentos científicos altamente específicos com lições de vida, sempre em busca de compreender melhor a arte de esquecer. Sua visão é abrangente, erudita e integrativa, reunindo estudiosos de linhas distintas, como Pavlov e Freud, recordando pioneiros como William James, enfatizando a contribuição de outros cientistas brasileiros, como Roberto Lent, citando literatos como García Marquez e Jorge Luiz Borges. Colige e organiza as mais variadas informações sobre o tema nos levando por um passeio interessantíssimo sobre a variedade de formas que a “arte de esquecer” pode assumir.

Para um leitor interessado em entender as novas descobertas sobre o funcionamento cerebral não faltam informações sobre como se processam as conexões ou sinapses entre neurônios via substâncias químicas chamadas neurotransmissores e neuromoduladores, como a serotonina, a dopamina, a acetil-colina; ou sobre as principais áreas cerebrais envolvidas na memória, do córtex ao hipocampo à amígdala cerebral (não confundir com a amídala, ou seja, os gânglios linfáticos localizados na garganta). Para quem desejar entender o funcionamento “administrativo” do nosso cérebro, Izquierdo explica os vários tipos de memória: a de trabalho, a de curta e a de longa duração, e como elas se organizam e repartem as tarefas de lembrar, mas também e com a mesma importância, de esquecer. E esclarece sobre os vários tipos de esquecimento: a extinção, a repressão, o bloqueio, a habituação, a discriminação, a dependência de estado – e até, a falsificação; contando sobre seus mecanismos normais e sobre os casos limite das enfermidades cerebrais, como a esquizofrenia e a epilepsia.

Sabiamente, cada nova informação científica é temperada com uma pausa para debater  questões conexas e variadas. Como a estória do famosíssimo personagem do escritor argentino Borges, “Funes o memorioso”, que nunca esquecia de nada e por isso era uma pessoa medíocre que não pensava, pois o excesso de lembranças impede a capacidade de generalizar e simplificar características do pensamento. Ou nos conta sobre o paciente H.M., que em 1953 teve boa parte do cérebro extirpada para curar sua epilepsia, causando a perda da capacidade de fazer memórias novas; e de como o intenso estudo do caso H.M por muitos cientistas, inclusive com as novas tecnologias de escaneamento desenvolvidas mais recentemente, ampliou o conhecimento sobre o funcionamento cerebral, que hoje já permite realizar cirurgias mais precisas e de menor risco colateral. Ou ainda, explica como a morte celular é um fenômeno adaptativo, necessário por exemplo para nos tornarmos bípedes – e perdemos a capacidade de seguirmos engatinhando pela vida.

Izquierdo aproveita sempre para dar exemplos práticos e reais sobre os conceitos que explica. Ao falar sobre os esquecimentos voluntários e as falsificações das memórias comenta  o esquecimento dos povos, ou melhor, de como cada nação “fabrica” sua memória e escolhe os heróis que prefere cultuar, em geral extirpando da memória o lado negativo de cada um desses personagens.  Após cada exemplo ou digressão oportuna, volta às abordagens de cunho científico, retoma a arte de esquecer sobre outros ângulos, segue a narrativa praticando uma das técnicas fundamentais para a fixação das memórias, que é a reiteração das informações, fazendo-o com elegância e pertinência.

A arte de esquecer é um livro a ser lembrado: de pequeno formato, de grande intensidade e de agradável leitura. Se o esquecimento é uma capacidade inata que pode e deve ser aperfeiçoada para que a vida seja melhor, vale à pena se lembrar de apreciar este pequeno grande livro.

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Equipe Ciensacional

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